A hora de morrer

São Paulo, 02 de Outubro de 2010, sábado, 21:26. Nessa exata hora uma criança está sorrindo em algum lugar, uma criança chora de fome em outro, nessa hora um casal briga e pede divórcio e em outra parte da cidade outro casal troca juras de amor eterno diante de todos. Nessa exata hora uma criança nasceu em um hospital, nessa exata hora meu telefone toca … recebo a noticia que minha avó morreu. Ninguém esperava essa hora, pelo menos não agora, ela não passava por problemas de saúde e planejava uma viagem, mas essa hora chegou de súbito.

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou (Eclesiastes 3:1,2)

Não é a primeira vez que eu participo de um velório, lembro-me quando minha bisavó foi sepultada quando eu era muito pequeno, depois o meu pai, minha outra avó e também acompanhando amigos nesse momento tentando consolar a família, enfim, perdi as contas de quantas vezes estive nesse ambiente seja por proximidade com o falecido ou sem mesmo conhecê-lo diretamente. Eu estava lá fazendo meu papel de filho, neto ou ombro amigo. A presença silenciosa da morte não me é estranha, momento em que todos param tudo de repente se reúnem em volta do falecido e encaram um lembrete que ninguém quer pensar e faz de tudo para afastar o pensamento dessa possibilidade. Todos sabem que a morte é real e é certa, mas justo esse momento que todos sabem que é certo é o momento de maiores dúvidas, ninguém sabe o que fazer, quase que posso tocar em pontos de interrogação que pairam no ar. Nesse momento muitas vezes Deus é colocado contra a parede e nós cristãos questionados sobre as almas. Outras vezes vemos pessoas correndo de um lado para outro para resolver isso, assinar aquilo e passam o velório inteiro perguntando o que fazer logo a seguir.

Coincidentemente, semana passada eu estava conversando com o Pr. Cláudio lá da Ibab sobre essas questões da alma, procurava saber o que responder para as pessoas, pois nunca soube com certeza o que acontece então não poderia afirmar com certeza também, não seria sincero nem ético. A conclusão que cheguei é que para as duas perguntas a resposta é, em síntese, exatamente a mesma. Viva o momento, cada momento é único sendo bom ou mau, há tempo para tudo, Seize the Day, Carpe diem.

João 11 conta a história de Lázaro, amigo amado de Jesus, que ficou profundamente doente. Jesus ao ser avisado sobre a doença permaneceu mais dois dias onde estava e depois foi até Lázaro, no caminho ele disse que Lázaro havia morrido e iria ressuscitá-lo, chegando lá chorou a morte de Lázaro para logo depois fazer o milagre.

Quando Jesus soube da doença de Lázaro, por que ficou onde estava e não saiu correndo? Mesmo tendo anunciado o milagre aos discípulos por que ele chorou ao ver a cena? A resposta seria que Jesus sabia da importância de cada momento, sabia da importância de aproveitar aqueles dois dias e sabia da importância de chorar a morte do amigo pois aquele momento pedia isso.

Então do ponto de vista puramente material é necessário entender a importância de aproveitar o momento para chorar a morte de um ente querido, logo os contratos, as contas e afins são um problema do dia seguinte, agora é hora de chorar e consolar, basta a cada dia o seu próprio mau. Do ponto de vista espiritual é a mesma coisa, o destino da alma não é preocupação nossa, não é trabalho nosso é de Deus, o momento pede para que eu lembre do Deus que eu sigo, das experiências que tive com Ele, conheço Sua misericórdia, Seu amor, Sua graça, é hora de confiar nele e não me preocupar, é hora de procurar os braços do Pai para me consolar.

Eu vivi bem próximo da minha avó por muito anos, ela era muito trabalhadora, esforçada, gostava de viver, eu via nela amor em tudo o que ela fazia, via uma boa índole em suas intenções, mesmo que muitas vezes sua forma de comunicação não fosse bem entendida por todos, eu via que ela amava muito. Mas independente disso o que traria paz a minha alma não seria justificar a vida de ninguém diante da sociedade, até mesmo porque por convicção não creio que ninguém possa justificar ninguém senão mediante da confissão da necessidade de Cristo. O que me traria paz não seria organizar todos os documentos e deixar a papelada pronta. O que me trouxe paz foi saber Quem é o Deus que eu sigo, saber que se a alma da minha avó está na mão Dele logo ela está bem, eu não conheci o coração da minha avó em seus mínimos detalhes mas eu conheço meu Deus e sei da sua misericórdia com os humildes de coração. Não preciso me perguntar se a alma dela está salva, isso não é da minha alçada, preciso “trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lamentações 3:21) é isso que Deus quer que eu faça nesse hora, somente isso e mais nada.

Lucas Lainetti

Aproveitando o tempo nas mãos de Deus (Carpe diem)

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Sobre Lucas Lainetti
Cristão teimoso em continuar seguindo Ele apesar da igreja rs, sobrevivente de evangelho pós moderno. Não sou teólogo, nem pastor, também não recebi nenhuma unção especial me tornando acima de alguém. Ás vezes sou um trabalhador ás vezes sou só um cidadão, ora amigo na alegria ora irmão na angústia, marido sempre feliz e orgulhoso da esposa. Mas em todo o tempo eu sou cristão tentando ser um sinal do reino fora do templo

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